Acervo Prêmio Pierre Verger

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A Retreta dos Músicos Negros

A Retreta dos Músicos Negros
Fernando de Tacca


Ano 1933: existia na cidade de Campinas somente a Banda Ítalo-brasileira. Esta banda não aceitava músicos negros em suas fileiras.

Ano 1933: um grupo de músicos negros funda a Corporação Campineira dos Homens de Cor. A banda existe até hoje, a outra mudou de nome e descaracterizou-se.

Toda sexta-feira, na rua Luzitana nº 127, eles se reúnem ritualmente para conversar sobre suas vidas, seus parentes, suas angústias, suas dificuldades e seu passado. Toda sexta-feira eles se encontram para ensaiar e tocar as músicas que executarão nas retretas, mesmo que não hajam apresentações confirmadas. Todas as sextas eles ensaiam músicas que todos eles conhecem e tocam há muito tempo; São em torno de vinte músicos e mais da metade é formada por aposentados que fazem parte da segunda geração, ou seja, a própria continuidade.

Considerados por Darcy Ribeiro como povos transplantados, os negros foram trazidos da África para as Américas desde o século XVI como escravos para o trabalho braçal. Oriundos de diferentes regiões, falando diferentes línguas, foram amontoados nos navios negreiros e depois nas senzalas das fazendas, em condições sub-humanas. A diversificação cultural e a fragmentação de seu modo de ser obrigou-os assumir padrões impostos da classe dominante, os brancos europeus. Aprenderam sua língua e progressivamente foram perdendo sua identidade original. O processo de aculturação foi minando lentamente seus valores tradicionais e roubando sua memória, mas o imaginário continuava presente.

Em algumas regiões do país o sincretismo religioso, ao incorporar elementos da religião católica aos rituais africanos, permitiu a permanência pelos séculos da escravidão até os dias de hoje de uma religião afro-brasileira, guardando assim as vozes dos Orixás e sua musicalidade rítmica dos seus tambores.

A incorporação dos valores dominantes deu-se em maior ou menor grau em parte devido ao ciclo econômico no qual se inseriam os negros escravizados. Campinas, antiga Vila de São Carlos, teve seu crescimento aliado ao desenvolvimento do ciclo do café, período que coincide com a Abolição da Escravatura. Nestes anos que antecederam o fim da escravidão, como se sabe, o fluxo de escravo tornou-se menor. Acontece nestes anos a maior parte da imigração italiana que vai competir com a mão de obra escrava recém libertada nas plantações de café.

Libertados e abandonados, eles não conseguem competir com a produtividade do trabalhar europeu acostumado com a venda de sua força de trabalho. Os imigrantes irão firmar contratos de trabalho e de arrendamento de terras muito mais vantajosos. Os negros, rechaçados do campo, migram para as cidades e vão formar a base do proletariado urbano da cidade industrial nascente.

Nesta realidade, já com sua identidade recortada e remontada pelo processo escravagista é que se diluirá ainda mais na complexidade do tecido social da modernidade urbana. Nesta contextualização que deve ser compreendida a necessidade destes músicos negros de apropriarem de uma musicalidade do dominante para criar um espaço organizativo alternativo e autônomo.

Campinas é hoje uma metrópole com mais de um milhão de habitantes e essencialmente industrial, onde se pesquisa tecnológica de ponta da informática, da telefonia, da química fina, da física nuclear, da luz síncronton, etc. Sincrônica a uma efervescente atividade intelectual e artística, a cidade mantém práticas comuns às cidades do interior, com folias de reis e retretas.

Destarte, podemos encontrar, domingo em um coreto de praça pública, uma banda com toda sua formalidade, uniformizada, entoando sambas, chorinhos, e também dobrados; só que seus músicos são todos negros.

O olhar despercebido e entorpecido pelas notas graves da tuba ou pela gestualidade regencial do maestro não notará que entre estes homens notáveis circula uma energia tão forte quanto à própria música: sua identidade de homens negros construída na intimidade do cotidiano.

Ano 2002: toda sexta-feira à noitinha, na rua Luzitana, esses músicos se encontram para conversar, rir, lamentar, recordar e se unir pela música. Fazem isso religiosamente há oitenta anos.

Este ensaio fotográfico se baseia em dois eixos que caminham juntos na construção dessa identidade: negritude/ musicalidade e corpo/instrumento. Nada além de retratar plasticamente a metonímia da extensão entre o corpo e o instrumento, uma relação de paixão.

Diários Porteños

Diários Porteños
"Fernando de Tacca é fotógrafo, professor no Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação/Unicamp. Editor da Revista Studium (www.studium.iar.unicamp.br). Assumiu a Cátedra de Estudos Brasileiros na Universidade de Buenos Aires, com curso de pós-graduação sobre Antropologia e Imagem no Brasil, pelo Programa Cátedras Unicamp &Universidades Espanholas. A Cátedra Unicamp/UBA é apoiada financeiramente pelo Grupo Santander-Banespa."

A política das ruas

Piqueteros descansam na Praça de Maio Ex-combatentes da Malvinas protestam na Casa Rosada Manifestantes estendem faixa Multidão observa confronto entre policiais e piqueteros Multidão observa confronto entre policiais e piqueteros Multidão observa confronto entre policiais e piqueteros Ex-combatente da Guerra das Malvinas

Depois da saída do presidente De La Rua, em dezembro de 2001, cercado por uma multidão e fugindo de helicóptero, os movimentos populares tornaram-se mais organizados e estão cada vez mais nas ruas, quase todos os dias. A sociedade contemporânea centra-se em deslocamentos intensos de pessoas, de fluxo de informações e, principalmente, nos movimentos do capital. E, se não podem impedir as idas e vindas do capital, os argentinos fazem bloqueios em vias públicas, impedindo o fluxo de milhares de pessoas com os cortes de rotas, avenidas, pontes etc, atingindo, de certa forma, partes vitais da sociedade de consumo. O fato torna-se mediático imediatamente, sendo acompanhado sistematicamente pelas emissoras de televisão e pelas rádios, que chegam a informar as rotas bloqueadas. O tema mais atual são os grupos de piqueteros, alguns considerados brandos, outros radicais.

As manifestações dos grupos piqueteros sempre têm questões sociais imediatas como reivindicação: trabalho, saúde e melhores condições de vida, muitas vezes solicitando interferência do Estado em questões localizadas, como alimentação nos comedores públicos (restaurantes populares) e ações em bairros pobres. Esses grupos mobilizam-se além dos partidos e da sociedade civil organizada, e suas tomadas de posição são sempre feitas em assembléias populares.

Em meio às manifestações na Casa Rosada, podemos entrar em um acampamento de um grande grupo de ex-combatentes da guerra das Malvinas, com roupas militares, que levantou ali suas barracas permanentemente para reivindicar direitos sociais e reconhecimento da sociedade. Ou seja, a Praça de Maio, território da manifestação política, é ocupado constantemente, e a Casa Rosada está sempre preparada com grades de segurança contra manifestantes.

Toni Negri, recentemente do livro Multidão, dedica uma atenção especial sobre a Argentina, tendo como ponto de partida a revolta de dezembro de 2001. Para Negri, a reação da população argentina foi muito criativa. Nela, muitos trabalhadores assumiram as próprias fábricas e os debates políticos criaram uma rede de assembléias populares de bairros. Nesse contexto, também foram fortalecidos os protestos dos piqueteros. Para Negri, os ativistas de todo o mundo olham para a Argentina como uma fonte de inovação e também de inspiração. Em recente entrevista para o jornal El Clarín, Negri disse que a Argentina é “um dos laboratórios da sociedade pós-moderna”.

Arqueologia urbana

Arqueologia da memória recente Arqueologia da memória recente Arqueologia da memória recente

Percorrendo as ruas de San Telmo deparei, por acaso, com um espaço diferenciado, com esculturas, pinturas, expressões políticas e inúmeros pequenos cartazes com nomes. Embaixo de uma confluência de viadutos, uma escavação se anuncia como um estranhamento urbano. Um trabalho arqueológico de tempos recentes, tentativa de recuperar as informações de um passado muito presente ainda na vida dos argentinos, o desaparecimento de milhares de pessoas durante a ditadura militar, está em processo. Nesse local funcionou um centro clandestino conhecido como “Club Atlético”, entre fevereiro e dezembro de 1977. A partir de uma demanda de um grupo de sobreviventes e de organismos de Direitos Humanos, o governo da Cidade de Buenos Aires, começou a partir de abril de 2002, uma primeira iniciativa de arqueologia urbana relacionada a memória dos crimes cometidos pelo Estado na Argentina. A memória que tentou-se ocultar com a abertura da Autopista 25 de Mayo, ganha outra visibilidade assim que as estruturas da celas aparecem embaixo dos viadutos. Fragmentos de uniformes, sapatos, bonés, garrafas, moedas, elementos de plásticos, são hoje elementos ressignificados. O objetivo é uma recuperação documental e testemunhal dos sobreviventes como um lugar de memória das atrocidades da ditadura. O lugar é feio, sujo, e escuro, lúgubre, com muitos ruídos de caminhões e ônibus, quase grotesco, com olor pesado, aumentando ainda mais o clima de indignação, são tristes marcas de perda e de ausência. Com muita dor, o povo argentino está recuperando essa história para que jamais se repita.

Mitos argentinos: reafirmações e revisões

Mitos Argentinos Cartaz de convocatória peronista Cartaz de convocatória peronista

 


A parte mitos históricos que parecem ter uma vitalidade eterna, como Evita, Perón, Gardel, Chê e Maradona, que permeiam o imaginário argentino, alguns novos ícones surgem e outros estão sendo revistos. Em meio a “Personajes del siglo XX”, nos saquinhos de açúcar da marca Clamor, junto com Sartre, Einstein e outros, encontramos os mitos argentinos acima. Cartazes Perónistas sempre aludem aos dois próceres do Partido Justicialista, e como sempre, Evita em plano mais destacado. Muitas vezes, Perón aparece de forma inusitada e em espaços inimagináveis, como um destaque na abertura de uma exposição de fotos na mostra “El Che Guevara por los fotógrafos de la Revolución”. A fala creditada a Perón poderia ser de qualquer um, não tinha nada diferenciador, e perguntei a dois jovens presentes se sabiam porque havia aquele texto na abertura, e eles não souberam explicar, somente disseram que não viam sentido estar ali, mas no espaço da exposição, ouvia-se o som de bandoleones, e um grupo de jovens encontrava-se para bailar “el tango” entre fotos de Che e a fala de Perón, no Centro Nacional de la Música. De certa forma, acontecia ali um encontro inconsciente de mitos. As idas e vindas de Maradona para Cuba, parecem reafirmar alguns desses laços do imaginário argentino.

“Madres y Abuelas”

Pañuelos Pañuelos Pañuelos Pañuelos Pañuelos

 


Todas as quintas-feiras elas estão lá, infalivelmente as 15:30 horas se juntam em fila, ombro a ombro, e dão três voltas na Praça de Maio, em frente da Casa Rosada. O acontecimento político da dor pelo desaparecimento de seus filhos, como primeira manifestação pública contra a ditadura militar, continua como reivindicação da vida e de novos momentos da política. Todas se cobrem com um lenço branco, os Pañuelos, como são chamados os panos que cobrem a cabeças das “Madres de Plaza de Mayo”.

São duas ondas de velhas senhoras a dar voltas, muitas delas com dificuldades para andar, e o atento observador verá que existe duas linhas: Madres de Mayo - linea fundadora e a Asociación de las Madres de Mayo. As diferenças para os estrangeiros não são muito visíveis, mas transparece que a Associação da Mães da Praça de Maio assumiram um novo papel na política argentina e também se expressam com conteúdos internacionalistas, enquanto a chamada Linha Fundadora se detém mais nos objetivos fundadores de reivindicar a verdade sobre seus filhos desaparecidos. A prática política da Associação se estende para amplos setores da sociedade argentina, e até criaram uma Universidade Popular com forte marca de formação política. Entre os cursos oferecidos estão, por exemplo, a formação em Direitos Humanos, Educação Popular e Cooperativismo. Distingue-se claramente das inúmeras entidades privadas que estão na esfera recente do ensino universitário focadas em administração e business.

A luta de mães e avós é uma luta pela identidade, pela não aceitação de um passado esquecido, e assim, marcam a história da Argentina até os dias de hoje, sendo constante assunto de mídia, principalmente quando a Associação “Abuelas de Plaza de Mayo”, localiza uma criança filha de pais desaparecidos ou mortos pela ditadura, e consegue o reconhecimento legal dessas crianças adotadas geralmente por militares. “Há vinte anos, Luz” ( tradução para português da editora Objetiva), um romance de Elsa Osorio, escritora argentina que reside em Madrid, é um drama sobre a brutal repressão da ditadura militar, e conta a história de um criança separada de seus pais, presos políticos. O romance inicia com um prólogo, o encontro de pai e filha, e segue para uma construção de características do período argentino durante a ditadura e as seqüelas doloridas da arbitrariedade. Recentemente, um pai preso em 1975, com prisão legal, depois libertado, exilou-se na França em 1979, e não teve a mesma sorte de sua companheira que morreu na prisão depois de ser seqüestrada com o filho de apenas nove meses, em 1976. Ele teve o primeiro encontro com seu filho no começo de novembro depois de 30 anos! E em outubro, uma das doze fundadoras das “Abuelas”, Leontina Puebla de Pérez, reencontrou sua neta de 27 anos. Através de exames provou-se com 99,9999% a consangüinidade com a família. Leontina soube da neta no Canadá, onde mora atualmente. São histórias que emocionam qualquer pessoa, e não como uma simples “porta da esperança”, mas como uma busca pessoal e uma luta política diária.

Os Pañuelos, marca indicial desse movimento na lembrança de fraldas de bebês, se tornaram um símbolo contemporâneo de luta por justiça social, liberdade e pela vida, e encontramos esse símbolo em muitos espaços da cidade, no próprio chão da praça.

Pueblos Originários

Grafite da derrubada de Roca de seu cabalo Placa Av. Pueblos Originários

 


Nesse sentido, quase como uma vertente “anarquista”, Osvaldo Sayer, um historiador reconhecido que escreveu o livro “A Patagonia Rebelde”, sobre o massacre de um grupo de trabalhadores anarquistas no começo do século XX, encabeça um grupo de pessoas e se encontram pelo menos uma vez ao mês, sempre nas quintas-feiras, em frente da estátua do General Julio Argentino Rocas, na tentativa de fazer uma revisão desse mito militar. Nesse encontros, em meio ao barulho dos carros e ônibus, em um pequeno espaço ao lado do portentoso monumento, Sayer faz comentários de passagens históricas da chamada “Campana del Desierto”, e mostra fatos pitorescos e trágicos. A morte de milhares de indígenas na ocupação do interior argentino cobre de sangue a construção desse mito, e na parte mais pitoresca, Sayer demonstra que o comandante militar raramente subiu em um cabalo, e o fez somente para as fotografias, não estando nas batalhas, ou seja, nem como militar pode ser lembrado. Existe hoje um “Comisión Anti-monumento a Roca”, que reivindica a imediata remoção e destruição de monumentos com a figura de Roca, a retirada de circulação das atuais notas de 100 pesos, substituindo Roca por um novo desenho, e pede a expropriação e devolução das terras. Ou seja, reivindicam uma revisão da história oficial levando em conta que os crimes de lesa humanidade não devem ser esquecidos.

A avenida que cerca a estátua leva também o nome do general Roca, entretanto, há mais de um ano foi rebatizada pelos movimentos populares de Pueblos Originários, e assim ficou, e se assim ficar mudará o nome por iniciativa popular, uma história que se constrói nas ruas. Aos domingos pela tarde, podemos estar na calle Peru, ao lado da estátua, e um grupo de pessoas se encontra para bailar a chacarera, com os lenços brancos marcando o envolvimentos dos casais que ali se encontram de forma espontânea para uma convivência de busca de suas tradições, e aqui os Pañuelos são de sedução. Daí podemos ver as manchas de tinta vermelhas, e as marcas de mãos também vermelhas, marcando o sangue indígena derramado, como também o eficiente grafite que marca uma derrubada de Roca de seu cabalo, em tons variados, do preto ao dourado.

Os olhos de Cabezas

José Luis Cabezas
Uma imensa ampliação fotografica do olhar do fotógrafo José Luis da Revista Noticias, está na entrada da redação da revista, calle Chacabuco quase Av. Pueblos Originários, e pode ser vista de fora do prédio mesmo pela noite com uma iluminaçao especial. José Luis Cabezas foi assassinado quando trabalhava fotografando para esse semanário político e estava cobrindo as férias de políticos, atores e desportistas em praias ao sul de Buenos Aires. Seu assassinato foi amplamente difundido pela imprensa mundial. A mando do empresario Oscar Andreani, descontente por ser fotografado, foi maltratado até a morte com dois tiros na cabeça. Seu companheiro de reportagem, o jornalista Gabriel Michi faz um relato minucioso de todo o acontecimento e seus trâmites na justiça, acompanhando passo a passo o processo e outros fatos ligados ao assassinato. Para ele, a morte de Cabezas era um recado mafioso para os jornalistas. Algumas pessoas estão presas, mas, segundo ele, fatos ainda não foram aclarados, com por exemplo, a participação da policia no episódio na tentativa de encobrir o assassinato e atrapalhar as investigaçoes. Os olhos tristes de Cabezas, como um mito recente, parecem nos dizer que existe hoje um novo olhar sobre a Argentina, fiscalizador e reivindicatório.

O Último Trem

O Último Trem
Luiz Eduardo Robinson Achutti

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Nas oficinas da antiga Rede Ferroviária Federal em Porto Alegre eu sabia que iria encontrar imagens de homens no trabalho evocadoras de Lewis Hine. A privatização da rede já estava anunciada, e óbviamente a transformação total e o desemprego também. Foram dias passando pela mecânica, solda, pintura, elétrica, etc.

O clima já não era bom, e se uma estética dos anos trinta do século passado estivesse presente, ela não devia justificar uma duvidosa moderna privatização. Clima de sortear a partida para o desemprego daqueles que tinham verdadeira devoção por locomotivas - condutoras de suas vidas, e uma em especial, uma já sem função adorada no pátio.

Sabe-se lá o que se faz dos trens hoje no Brasil, sabe-se lá o que é feito destes operários que registrei. Uma fotografia é o tempo coagulado, como diz o escritor João Gilberto Noll.

Estes operários do "passado" voltam aqui na página da ABA.